Lasers e Epigenética: como os tratamentos a laser atuam ao nível celular
- Dra Vera Matos

- 22 de set. de 2025
- 4 min de leitura
Vivemos numa era em que a Medicina Estética vai muito além da superfície. Os tratamentos deixaram de se limitar a resultados visíveis no espelho para interagirem diretamente com os processos celulares que definem a forma como envelhecemos, como regeneramos e como reagimos ao ambiente que nos rodeia.
E é precisamente neste ponto que surge uma pergunta cada vez mais pertinente: os lasers conseguem influenciar o nosso corpo por dentro?
A questão pode parecer ousada, mas é legítima. A verdade é que a ciência está a aproximar-se, com cada vez mais dados, da compreensão profunda de como a energia luminosa pode modular a expressão genética sem alterar o ADN. E como médica dedicada à Medicina Estética Regenerativa, é impossível ignorar o que os estudos mais recentes nos revelam.

Epigenética: quando o ambiente regula os nossos genes
Antes de falarmos em lasers, precisamos de compreender o que está em causa quando falamos de epigenética. Este é o campo da biologia que estuda alterações reversíveis na expressão dos genes, sem que a sequência genética em si seja modificada.
O que comemos, como dormimos, os níveis de stress, a exposição a toxinas e até a luz a que estamos expostos - tudo isso pode ligar ou desligar determinados genes, como se fossem interruptores moleculares que controlam a forma como o nosso corpo responde ao mundo.
E é precisamente por esta lógica que os lasers médicos entram na equação.
O que sabemos sobre lasers e regulação genética?
Nos últimos anos, acumulam-se estudos que investigam os efeitos da fotobiomodulação - ou seja, a aplicação de luz (em especial, lasers e LEDs com comprimentos de onda específicos) para induzir efeitos terapêuticos ao nível celular.
A luz utilizada em Medicina Estética, como a que encontramos nos tratamentos lasers da Sciton®, como Halo e BBL, e no Endolift® e outros, tem demonstrado capacidade para:
Estimular as mitocôndrias a produzir mais energia celular;
Reduzir stress oxidativo e modular vias inflamatórias;
Ativar genes relacionados com regeneração, síntese de colagénio e reparação tecidual;
E, mais recentemente, interferir na expressão de genes inflamatórios e regenerativos, com impacto epigenético mensurável.
Estudos in vitro e in vivo 1,2 indicam que a exposição a lasers entre os 600 e 1100 nm pode induzir alterações transcricionais reais em células humanas, incluindo queratinócitos, fibroblastos e células do sistema imunitário.
1 Modulatory effect of photobiomodulation on stem cell epigenetic memory: a highlight on differentiation capacity. Lasers in Medical Science. Publicado em 7 de setembro de 2019 (volume 35, páginas 299–306)
2 Review on the molecular mechanisms of low‑level laser therapy: gene expression and signaling pathways. Lasers in Medical Science, março de 2025, vol. 40(1).
Através da indução controlada de microlesões e do estímulo de vias de reparação tecidular, observa-se não apenas a renovação estrutural da pele, mas também a modulação da expressão génica, da senescência celular e de mecanismos de reparação do DNA. Estas alterações epigenéticas sugerem que os lasers têm potencial não só para reverter sinais de fotoenvelhecimento, mas também para contribuir na prevenção de patologias cutâneas relacionadas com o dano solar, incluindo o cancro da pele.
Estudos recentes3, com mais de 2 décadas de pesquisas, mostram que lasers fracionados (ablativos e não ablativos) reduzem ou atrasam o desenvolvimento de cancro da pele nomeadamente carcinoma de queratinócitos (KC) e lesões pré malignas como queratoses actínicas (AK) em pessoas com dano solar significativo.
3 The evolving landscape of laser-based skin cancer prevention. Lasers in Medical Science. 2025;40: Article 70.
Os avanços recentes demonstram que os tratamentos a laser, para além dos seus efeitos clínicos visíveis na remodelação e rejuvenescimento cutâneo, podem também atuar ao nível celular e epigenético. Assim, a integração de dados clínicos, moleculares e epigenéticos reforça a perspetiva de que os lasers representam uma ferramenta terapêutica inovadora, com impacto que vai além da estética, abrindo portas a estratégias preventivas e regenerativas na medicina estética e dermatologia moderna.
Da teoria à prática: o que se observa clinicamente?
No dia a dia em consulta, observa-se cada vez mais evidência empírica a confirmar esta ação profunda: a pele não só “parece melhor” como se comporta como pele mais jovem, mais saudável, mais funcional.
Após tratamentos com laser Halo, observo não só melhoria estética, mas também respostas regenerativas mais rápidas, com remodelação tecidual e firmeza que vão além da superfície.
Com BBL (luz pulsada de alta intensidade), noto modulação vascular, redução de inflamação crónica e melhorias visíveis em condições como rosácea, melasma e hiperpigmentações pós-inflamatórias.
No caso do Endolift, a ação térmica subdérmica parece induzir respostas celulares intensas, com efeitos regenerativos visíveis inclusive em tecidos com fibrose ou inflamação persistente.
Estes resultados sustentam a ideia de que os lasers, quando bem indicados e aplicados por médicos qualificados representam uma ferramenta terapêutica inovadora, com impacto que vai além da estética, abrindo portas a estratégias preventivas e regenerativas na medicina estética e regenerativa moderna.
Epigenética, sim. Ficção científica, não
Importa fazer uma distinção clara: os lasers não reescrevem o ADN. Não estamos a falar de manipulação genética no sentido clássico. Mas sim de modulação de como os genes são expressos - uma espécie de afinação biológica, segura e previsível, que nos permite estimular as células certas a fazer o que já foram programadas para fazer: regenerar, equilibrar, responder.
A epigenética não é uma promessa futura. É um campo real, com implicações clínicas que estão a mudar a forma como vemos a Medicina Estética - não apenas como uma especialidade visual, mas como uma disciplina regenerativa, integrada e baseada em ciência.
O que isto significa para quem procura um tratamento?
Significa que escolher um tratamento com laser é, cada vez mais, uma decisão terapêutica, de promoção de saúde e não meramente estética.
Este enquadramento revela que os procedimentos a laser podem contribuir não apenas para a melhoria da aparência da pele, mas também para a sua integridade biológica, atuando em processos de regeneração e proteção celular. Assim, ao optar por este tipo de tratamento, o paciente está a investir numa abordagem integrada, que combina benefícios estéticos com efeitos de prevenção e promoção da saúde cutânea a longo prazo.
Comentários