Os limites do Ácido Hialurónico: quando o rosto já não deve ser preenchido e temos que recorrer à hialuronidase
- Dra Vera Matos

- 22 de set. de 2025
- 3 min de leitura
O ácido hialurónico é uma das substâncias mais versáteis e seguras que usamos em Medicina Estética. É biocompatível, reversível e permite resultados imediatos, discretos e personalizados. Mas como em qualquer ferramenta médica, o seu sucesso depende da indicação correta, do momento certo e da quantidade adequada.
O problema começa quando se esquece que o rosto humano tem limites anatómicos, funcionais e estéticos. E que nem todos os rostos devem - ou podem - continuar a ser preenchidos.

Quando a utilização de ácido hialurónico é contraproducente
A ideia de que o preenchimento facial “corrige tudo” é perigosa. O ácido hialurónico na grande maioria das suas formas reticuladas é uma substância amorfa que proporciona volume e aumenta a retenção de água no local onde é injetado. Quando usado sem critério clínico ou de forma repetida ao longo do tempo, distorce proporções anatómicas naturais, compromete o movimento natural dos tecidos gerando expressões artificiais, compromete a drenagem linfática dos tecidos gerando edema e inflamação local que pode levar à hiperpigmentação.
Observamos diariamente pacientes com as seguintes complicações:
Edema crónico, especialmente na zona malar e sulco palpebral lateral. A injeção excessiva de volumes superficiais que se acomodam por cima da camada muscular provoca edema das zonas nasojugal, sulco palpebral lateral e malar por obstrução da drenagem linfática normal.
Rigidez facial, distorções na mímica, e perda de referências anatómicas originais, é causado principalmente por injeções superficiais e em volumes desajustados com produtos com alto G’. Alterações no sorriso por preenchimentos por cima da camada muscular causam miomodelação desajustada, comprometendo a mímica normal.
Nódulos e fibroses subcutâneas, a agressão repetida de qualquer tecido leva à inflamação, a injeção repetida de um produto como o ácido hialurónico podem provocar fibroses do tecido conjuntivo, nódulos infeciosos, granulomas crónicos que podem ser invisíveis à palpação superficial e provocar alteração do contorno facial, dor e inflamação.
O papel da hialuronidase
A hialuronidase é uma enzima que decompõe o ácido hialurônico por clivagem e desfragmentação do ácido hialurônico, permitindo corrigir excessos, assimetrias, complicações ou simplesmente remover o ácido hialurónico injetado para um novo plano terapêutico.
No entanto o seu uso clínico envolve alguns cuidados e nível de conhecimento médico avançado, pois não se trata de uma substância inócua mas altamente alergénica e inflamatória. No local de injeção provoca um edema local agudo e ativa a cascata inflamatória local. É uma substância capaz de provocar dor, ardor local e edema temporário dos tecidos, de cerca de 24h com resolução rápida.
Reações alérgicas à hialuronidase foram relatadas, geralmente caracterizadas por edema eritematoso local, eritema generalizado e urticária. Os sintomas alérgicos são normalmente conectados à exposição prévia ao veneno de abelha, não estando assim aconselhada a sua utilização a pessoas alérgicas ao veneno de abelhas.
Apesar das suas especificidades, é a ferramenta mais eficaz que possuímos hoje em dia para dissolver os preenchimentos e as complicações com ácido hialurónico. A injeção desta substância deve ser precedida de uma rigorosa colheita de história clínica, nomeadamente alergias.
Opinião Médica da Dra. Vera Matos
A banalização do ácido hialurónico levou a um fenómeno preocupante: a perda da perceção do excesso. O que antes era visto como exagerado passou a ser “normal”. O que era harmonia passou a ser “sem graça”.
O ácido hialurónico é uma ferramenta extraordinária - mas, como qualquer instrumento médico, tem limites. O rosto humano não é um molde. Não deve ser expandido indefinidamente.
Há momentos em que parar é tratar.








Comentários