Complicações com Ácido Hialurónico: o que acontece quando se exagera
- Dra Vera Matos

- 22 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Vivemos na era do "mais". Mais volume, mais contorno, mais projeção. A pressão estética - seja vinda das redes sociais, de modelos idealizados ou até de expectativas pessoais mal calibradas. A fronteira entre o que é medicina e o que é apenas estética está a ficar cada vez mais difusa.
O que começou como uma técnica regenerativa para restaurar volume e harmonia facial, tornou-se, em muitos casos, um instrumento de exagero e, mais grave ainda, de dano.
Não estou a falar de opiniões estéticas. Estou a falar de casos clínicos reais. Casos que recebo em consulta, com pacientes emocionalmente fragilizados e fisicamente marcados, que confiaram nas mãos erradas.

Quando o preenchimento se transforma em distorção
Os preenchedores, especialmente os à base de ácido hialurónico, são ferramentas extraordinárias quando usadas com critério clínico. Permitem devolver estrutura, suavizar marcas do tempo e equilibrar proporções, tudo isto com segurança, previsibilidade e, quando necessário, reversibilidade.
Mas nos últimos anos, temos assistido a uma tendência preocupante: o uso desenfreado de produto, sem avaliação médica, sem plano, sem limites.
O que era regenerativo tornou-se inflacionado. O que era subtil tornou-se caricatural. E com isso, surgem as complicações.
O caso clínico da paciente Ana Marinho
Uma paciente minha, a Ana Marinho, chegou ao Instituto Face Mi com complicações severas nos lábios após ter sido submetida a múltiplos procedimentos de preenchimento labial, realizados por uma pessoa sem qualificação médica.
No exame clínico, observava-se:
Assimetria acentuada do vermelhão labial;
Nódulos palpáveis e visíveis, com mobilidade reduzida;
Rigidez tecidual, com comprometimento da mímica labial;
Relato de dor persistente e sensação de tensão na zona tratada.
O tratamento envolveu:
Avaliação do tipo de produto utilizado (presumivelmente ácido hialurónico);
Sessões de hialuronidase para tentativa de reversão controlada;
Acompanhamento inflamatório e vascular;
Recurso a Endolift para destruição de biofilm e resolução da infeção assim como fotomodulação do tecido afetado
Este caso evidencia os riscos clínicos associados à realização de procedimentos estéticos invasivos por indivíduos sem formação médica, nomeadamente a ausência de diagnóstico prévio, falta de plano terapêutico e desconhecimento anatómico.
Complicações comuns em preenchimentos mal executados
Estes são apenas alguns dos problemas que surgem quando se ultrapassa o ponto de equilíbrio:
Assimetrias faciais visíveis, causadas por excesso de produto ou má técnica;
Nódulos subcutâneos e fibroses, que muitas vezes requerem intervenção com hialuronidase ou laser;
Edema malar crónico, um inchaço persistente sob os olhos que distorce o terço médio do rosto;
Inflamações recorrentes, causadas por biofilmes bacterianos invisíveis a olho nu;
Rigidez e perda de mobilidade, especialmente em zonas de expressão como os lábios e o queixo;
Alterações da identidade facial, com impacto direto na autoestima e na perceção de si.
E o mais grave: em muitos destes casos, o paciente não tem plena consciência da transformação negativa, a não ser quando o quadro é agravado.
Corrigir é sempre mais difícil
Tratar uma complicação estética é, muitas vezes, mais complexo do que fazer o procedimento inicial. Requer tempo, experiência e, sobretudo, paciência. Em alguns casos, envolve dissolver produto. Noutros, é necessário recorrer a tecnologias como o Endolift, para romper fibroses e regenerar tecido.
Mas há algo que nenhuma tecnologia pode fazer: apagar a memória emocional do que correu mal.
É por isso que, enquanto médica, insisto sempre numa abordagem fundamentada, personalizada e - acima de tudo - com limites. Porque nem tudo o que é tecnicamente possível é clinicamente aceitável.
Porque é que isto continua a acontecer?
Porque vivemos num ambiente onde o “mais” vende. Mais volume, mais definição, mais alteração. Porque muitos profissionais não médicos continuam a aplicar substâncias sem o mínimo entendimento anatómico. Porque se promovem pacotes e promoções de seringa, como se o rosto fosse um produto de consumo.
E porque a Medicina Estética, ao sair das mãos dos médicos, perde o seu critério clínico e torna-se apenas estética.
Opinião Médica da Dra. Vera Matos
As complicações em Medicina Estética são raras mas quando surgem são capazes de consequências imprevisíveis e permanentes. Se há uma responsabilidade que não abdico enquanto médica é a de proteger o paciente de resultados que não poderá apagar.



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